terça-feira, 29 de maio de 2012

um termo:

temperaturas cenicas

desumanizar-se

Abandonar o clichê, a imaghem-lei, a imagem-moral. O certo, o errado, o bem e o mal sao o mesmo que a imagem-sexo, a imagem-erotismo, o poder de sasha.
PizzaBoy é humilhado, imita um porco. Por que imitar uma galinha é uma prenda de festa de criança? Os gemeos colocam mascaras de urso e lobo.
Animalizacao.
Desumanizacao.
Quando Gabriel percebe isto, o que era emperrado vira fluxo. A crianca é livre, ainda nao aprendeu o que 'ser homem bom e homem mal. A criança é um monstro, uma grandisíssima filha da puta. O que é ser livre? Os nossos valores morais éticos, democráticos, etc., nos humanizam ou nao? Qual a medida exata?
PizzaBoy ja aparece desumanizado. Sem nome, apenas sua funcao, seu trabalho: Entregador de pizza
De alguma forma, sasha tambem.
Um é anonimo, o outro famoso. Sao todos sem nome, todos desumanizados. A desumanização é o elo entre os atos dos gemeos e a imagem-cliche, imagem-sasha. Pensando estes elos:

- A Imagem-lei, o cliche (sahsa cliche, o certo, o errado, etc.), isto encerra algo, limita algo, dá conta de algos em um algo só. Este processo desumaniza?

- O ato de violencia é um ato que busca ir contra a este Cliche. Trata-se de subverter o que ja é pensado como verdade absoluta e bagunçar, desmontar, deslocar. Trata-se da liberdade (O que é liberdade?), ou seja,do desapego real à moral. No entato, ''o que fazemos é uma caça ao humano''.

O que é violencia e o que é agressão em Miguel e Gabriel?

terça-feira, 22 de maio de 2012

TEMPO E ESPAÇO

Gente, estas sao algumas perguntas pra voces responderem pra voces e levarem pra cena:

1- Qual o espaco desta peça?
2- qual o tempo desta peça?
3- Como tempo e espaco especificos da encenacao ditam as coordeandas do meu estado?
4- Que estados sao esses?
4- Neste tempo e espaço, existe gravidade?
5- Qual a densidade do ar deste lugar?
6- Como sao estes seres que habitam juntos  (e ao mesmo tempo separados- virtual/real) estes tempo e espaco que é SOMENTE e ESPECIFICAMENTE deste lugar?
7- Qual a textura da minha voz neste lugar?


No ultimo ensaio, no momento da suspensao da boca, duas coisas para se atentar: a primeira é de na suspensao existir uma CORRESPONDÊNCIA entre vocês três. Voces desceram os tres juntos em dado momento. Isto pode parecer a principio apenas um detalhe de composicao da cena, mas na verdade diz muito sobre espaço e tempo dela. a sensacao que me deu quando isto foi feito foi de que neste momento todo aquele lugar deslizou pro lado, escorregou. Tipo o laboratório do Tibio e Peronio do castelo ra-tim-bum quando eles colocavam uma coisa mais pesada de um lado e o laboratorio fica torto. Como ha um silencio nesta parte, um certo vazio, este gesto de correspondencia diz muito. O tempo agora é outro, foi-se para outro lugar. Outro momento é quando onie diz "Principalmente nesta parte aqui", e, nesta fala, luquinhas aponta para a cabeá e Onie coloca a cabeça no chao. Tambem ha uma correspondencia que deixa o espaco e tempo especificos, espaco e tempo tortos. A ideia de  CORRESPONDÊNCIA é um bom recurso para pensarmos estas leis de espaco e tempo.

Respondam estas perguntas para voce, e levem ela pro corpo e pro espaco, pra relaçao de voces, pras trajetorias, etc. Luquinhas, por exemplo, as quebras de direcao que o corpo faz (quando levanta da cadeira no começo e vai pra sasha, quando fala com gabriel pra camera, etc, isto é um recurso da cena que pode dizer sobre o espaco e tempo dela. Pode ser um bom camin ho pro Miguel.

Voces são três corpos em um espaco, sempre. é obvio que sempre em cena os corpos tem que dialogar. mas acho que nesta peça, pelo menos do modo como eu vejo ela em tempo e espaco, há um "pa-pum", um jogo muito coeso entre esses corpos, jogo do qual o video faz sempre parte. Sao sobreposicoes de quadros, talvez. As quebras de corpo do Luquinhas com suspensao com camera, tudo isto cria, de uma forma geral, uma idéia de sobreposicao talvez. A sobreposicao talvez seja a resposta de alguma das perguntas de cima, para mim. e pra voces? 
alguns recursos que tenho pensado e visto em cena que acho que criam um espaco e um tempo especifico para esta cena
- CORRESONDENCIA (falei acima)
- REPETIÇAO DE ELEMENTOS E GESTOS (gravata, partitura do Luqs que fecha uma cena e abre outra, gestos entre sasha e Gabriel)
- CORTES BRUSCOS DE LUQUINHAS.
- SUSPENSAO

Sobre a suspensão, só uma observação: to achando muito legal trabalhar com esta ideia na peça e acho que tem dado muito caldo. Fico pensando, a partir dessa visao de que uma das logicas desta cena é a sobreposicao, se na real as suspensoes nao sao sequenciaas de suspensoes e nao parentesis. o que quero dizer é: talvez tudo seja suspensao nesta peça, uma grande sequencia de suspensoes. E aí, talvez nesta soma de suspensoes, o saldo total seja a visao total das coordenadas de espaco e tempo desta peça





segunda-feira, 21 de maio de 2012

ENSAIO 19

ENSAIO 19, Vianinha, 21 de maio

Apontamentos do ensaio de hoje (cena 1)

- Luquinhas: pensar nas gradaçoes do Miguel, nas nuances. É muito importante que ele nao seja de cara um cara frio simplesmente. A frieza é fundamental, e a gente ja tem ela, mas o publico deve de alguma forma ser cativado pelo Miguel, assim como a sasha tem que ser cativada por ele. O teu "shh!"pra câmera e a estrutura fria da cena ja dao a entender, pra quem vê, que alguma coisa está prestes a acontecer, que algo de "errado''vai acontecer naquele espaço. Se Miguel é convidativo e carismático no inicio, a gente ganha mais nuances, mais desenho tanto pra cena quanto pro Miguel. Lembrar tambem das direcoes do texto, os momentos em que os assuntos mudam (ex: quando Miguel fala para sasha nao fumar é uma direcao. Quando ele vai falar a opiniao dele sobre o fumar é outro. Estas direcoes renovam a intencao de fala do Miguel e isto traz o desenho do personagem). Da ultima vez que passamos hojefoi bem melhor. Voce trouxe mais mãos, mais simpatia, aquilo que falei da malemolência. O caminho é este. As direções que você ja faz ("Nao é, Gabriel?"para a câmera, "quer fogo?" voltando para Sasha), isso pode ser um bom mote para você pensar a malemolencia dele, Não sei. Acho que seria bom voce estudar em casa num esquema bem de texto mesmo, sabe? dividir as mudancas de direcao no texto, colorir com partes diferentes as intencoes, etc.

- Sobre ritmo da cena: o que Onie disse de que o ritmo que ele retira da cena vem do Luquinhas e da Oli é muito verdade. Se vocês dois começam numa energia mais pra baixo, é difícil de Onie puxar. Tem a ver com o ''OIá''da oli no incio, a fala da sasha. Ele ainda tem alguma coisa do "medo"que tinha antes. Mas na real, a nergia do inicio quem puxa é Luquinhas. Miguel é o elemento que esta à vontade naquele espaço, ele quem leva a situacao, ele comanda. Isto se relaciona com o que escrevi no item acima.

- Oliver, muito bom as tentativas com a Sasha de hoje!! Sasha burrinha e teenager, menininha mesmo. E é muito bom buscar açoes pra sasha. Chegar, tirar a roupa, pegar cigarro, ficar à vontade, tudo isto deixa a cena mais rica e dá mais vida pra Sasha, deixa quem ve mais interessado naquilo que vai se passar. Acho que hoje rolou uma aposta de Sasha muito boa para investir mais, Trabalhe sobre isto! Uma lista de pontos teus de hoje:
- sasha teen e burrinha
- açoes de ficar a vontade (tirar a roupa, sentar, tirar bolsa, querer fumar)
- no foco da boca, saber que la é uma suspensao. A boca seduzindo.
- oscilar entre o achar que de fato vai haver um filme e nao entender a situação, aquilo que voce falou de ficar em duvida. Isto dá muito caldo, vamos trabalhar isso nos proximos ensaios. junto disso, o fato dela só ficar nervosa DE FATO, COM MEDO, quando Miguel mostra a faca, é interessante. Ainda nao sei colocar muito em palavras o porque, mas deixou a cena esvaziada num bom sentido, Um pouco dquilo de que te falei no ensaio: o jogo violento ganha uma dimensao estranha, esvaziada

- Atentar para quando de fato sasha sente medo. Fiz um pequeno percurso que pode te ajudar:
1- Miguel diz "Quem é que lhe disse que vinha para um trabalho?" (pausa tensa. subtexto: como assim? nao é um trabalho). Alias, este é o primeiro momento de tensao mais direto na cena
2- Gabriel diz "Vais ver se nao se alinhas"(primeira afronta direta. Aqui, como eh gabriel que te diz isso, vc vai enfrenta-lo para a camera. Este deslocamento leva ao seu inicio da suspensao, quando vc segue sua trajetoria. encare esta trajetoria como inicio da suspensao. O andar reto e parar estatica sem foco talvez te ajude nisso)
3- Suspensao do grito. Nesta suspensao, voce cai no final. É uma pequena previsa do que vai acontecer com sasha e na cena 2. Ou seja, depois dela há um nivel de tensao maior. Quase como se ela levasse um grande tapa na cara. Use a queda para chegar neste estado de desorientacao.
4- A partir da segunda supensao, o grau de medo muda. Eles brincado de sinonimo é a situacao mais absurda que pode existir naquela ocasiao

- Tudo que  surgiu depois que Miguel joga sasha no chão, Luquinhas em cima de sasha, Gabriel filmando, é bem legal e merece ser mais trabahado. A coisa de Luquinhas falar com sasha mas virado para a camera e de Olvia estar vira para frentenos cria um quadro otimo, é uma relacao otima com a câmera.  Pensem nisso, sempre pensando no sentido que voces acham que isto produz na cena e como investir nele

- Lema, como falei hoje mais cedo, o papel do Gabriel ficou bem indefinido hoje.Como o gabriel é o personagem cuja dramaturgia mais se relaciona com o video e com a filmagem, isto é mais delicado. Hoje esqueci um pouco de ti em funcao de estar levantando a cena. Mas, enfim: sobre o que Oli comentou de gabriel estar muito infantilizado, eu talvez concorde mas eu gosto desta opçao. Acho que esta peça se passa, no final das contas, na cabeça do Gabriel, ou seja, um espaco onde uma certa coerencia nao cabe. Talvez o interessante seja , pensando neste espaco e tempo da peça, talvez o interessante seja investir em mudancas bruscas. O que quero dizer com isto: se ele é criançao um momento, por este momento ele é só criançao. se eu dado momento ele é "velho deprê"que nao sai de casa, como disse oli, ele é so velho depre. a coisa da cena ser feita de mudancas bruscas de direcao ir para o personagem tambem. Mas o que tenho pra te dizer é que esta composicao ïnfantil"do gabriel me agrada e faz sentido. Gosto do fato de ele ser criançao e o texto dizer em um momento que ele tem 33 anos.

De uma forma geral, trabalhar a cena (como sempre), entendendo melhor alguns pontos fundamentais (objetivos, nuances, relacao dramaturgica com video, relacao video/cena (aprimorar), etc. Vamos seguindo. leiam e releiam isto com atencao pra gente ir seguindo com foco, com algumas bases. É importante para nao chegarmos virgens no proximo ensaio da cena 1, sempre irmos adiante.



domingo, 20 de maio de 2012

ENSAIO 16 – “O quarto é individual...


ENSAIO 16 – “O quarto é individual...”

“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual; tanto maior uma certa liberdade, o quarto é um mundo, quarto catedral, onde nas intermitências da angústia descobre-se o rosto para colher de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mãe, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a grande embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto leve e silencioso, me pus de pé, me curvando para catar a toalha estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei em seguida a cabeça para agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns passos e abri uma das folhas me recusando atrás dela; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio suas mãos fortes nos meus ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse ´eu não te esperava´ foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava com o que eu fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti ´eu não te esperava´ foi isso o que eu disse mais um vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia ´nós te amamos muito, nós te amamos muito´ e era tudo o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse ´abotoe a camisa, André´. (“Lavoura Arcaica”, Radum Nassar. Capitulo 1)

Inicio com massagem. Depois, trabalho com foco móvel. O olho atual no espaço leva todo o corpo. Renovar o foco, se auto-sabotar. Promover a mudança real de direção do corpo. Do plano baixo pro médio e pro alto. No alto, aumentando velocidade. Caeira: ao comando, sentar na cadeira e começar fluxo verbal ininterrupto. Bom poder fazer fluxo com Lema. Os dois falando o que pensavam naquele espaço. Do fluxo, voltar. Sempre tentar aprimorar mais o foco móvel e a direção. Não gastar energia à toa. Parede: ao comando, empurrar parede com todo o corpo. Lema se cansa fácil, mas não pára. É importante concentrar energia. Da mesma forma que eu me auto-saboto e troco o foco móvel, eu trabalho a minha energia para não gastá-la à toa. Onie reclama de dor na garganta, na verdade um gânglio. Talvez fazer aquecimento de voz antes de exercícios vocais. Três pontos para se trabalhar portanto: foco móvel, cadeira e parede. Eu dou o comando e ele troca. Após trabalhar com estes três, um quarto comando, o texto: ao comando, pegar a folha de papel e ir falando o texto sem parar. Objetivo: não se ater ao sentido do texto, ao significado prévio dele, mas sim a sua massa de palavras. Palavra é massa, tem tamanho, volume, etc., isto tudo também é sentido (isto é maravilhoso). Atentar para sonoridade, ritmo, brincar com as palavras. O texto foi transposto para fluxo continuo, ou seja, possibilita maior jogo de pontuações, intenções, etc. Como quando fiz com Luquinhas num ensaio passado, o jogo demora a engrenar. Demora um tempo até parar de “racionalizar” o texto. Mas npos dois casos demorou muito pouco. Acho que o aquecimento ajuda nisso. Quando engrena é visível. É interessante observar a diferença de um ator para o outro. São corpos muito diferentes. Embora Luqs e Neido tenham prontidão e energia , força, Luqs trabalha mais com a contenção de energia talvez, sabe armazenar, domá-la melhor,e Onie vai num fluxo só. Talvez pelo fato de Luqs estudar teatro. Enquanto o corpo de Luqs é todo consciente, concentrado, tensionado, com prontidão, o de Onie é também com prontidão, mas é mais “desengonçado”, mais soltão, menos preocupado. Um é mais consciente e racional talvez, embora Luqs saiba dosar o racional, e o outro é mais “vamo lá um dois três valendo”. É interessante ter esta combinação em cena. Talvez seja uma diferença no que diz respeito a vetores. Luqs tem os vetores mais tensionados, mais lustrados, mais lapidados. Onie consegue chegar fácil nos vetores, trabalha isto bem,  mas o natural é ser corpo que vai, enguia solta loca. Isto cria diferenças muito claras entre os gêmeos, um ajuda o outro, se bobear, complementa. Voltando: para ajudar no exercício, propus o exercício de fôlego da Ana Kfouri: falar o texto em um so fôlego. Quando o fôlego vai acabar, testar mais e mais. Sempre se testar, se auto-sabotar. Nunca está bom, sempre pode ir mais. Isto ajudou Onie a ir jogando com texto. Um tempo neste jogo, em dado momento uma qualidade de corpo interessante: pés tensionados, como que andando em um aquário d´agua. Dou esta indicação a ele para faciliar (este tipo de qualidade, de intensidade, lenta, eu sempre acabo tendendo para ela, talvez pela idéia de suspensão da peça. Fico pensando nesta coisa de a obra revelar o artista e etc., acho que tem muito a ver comigo mesmo este tempo-rtimo, esta percepção , esta atmosfera mais calma e concentrada. Talvez por gostar de trabalhar esta qualidade enquanto ator, quando dirijo tendo a encontrá-la fácil e entendê-la, eu acho.Enfim...). Peço para ele tirar texto e continuar o andar nesta qualidade. Ele quebra muito o tronco. Penso em pedir para ele não quebrar o tronco, ser menos enguia louca, mas não falo. A onda é dele. Fica um tempo nisto e depois retorna ao texto. Continua brincando, surge um jeito meio automático de falar, um teste mesmo com outras formas de lidar com as palavras. Os pés no geral não muito fincados no chão. Penso em falar para fincar os pés, mas também considero que não. O fato de Onnie não ser ator, ou não estudar isto, ou não atuar há muito tempo, leva o trabalho para lugares muito iteressantes as vezes. Começamos uma segunda etapa do trabalho: peço para ele repetir a qualidade do andar de antes só que sentado. Reduzir a 50%, e com isso tirar um pouco o tronco. Lema entende bem quando falo sobre deixar a ação mais para ele do que para quem vê, mais motor interno. Peço para ele inserir na investigação um segredo dele, que deve ser cochichado bem baixinho. Eu não preciso nem quero ouvir, mas ele deve falar (Salve Celina Sodré!). Ele o faz e realmente uma qualidade interessante surge de lá. Daí, partimos para o início do texto, a descrição do quarto. Da qualidade do corpo e do segredo, peço para ele dizer o texto. Texto e corpo juntos. Uma intenção de confissão vem de imediato, uma qualidade pausada. Lema tem um timbre bonito de voz, sabe dar um texto, isto é bão. Começa dando o texto olhando prum ponto fixo e depois mudando de foco do olhar. Peço para permanecer num foco só, acho que traz tônus e vigor pra ação. O texto é sobre masturbação, um texto bem poético, e, portanto, algumas questões: não valorizar as palavras para deixá-las sublimes, poéticas ou pomposas. Elas já o são. O texto convence e cabe na boca quando ele vem seco, puro, ingênuo, quando a boca deixa o texto falar (outra vez Ana Kfouri). Outro ponto: surgem apontamentos deste texto, o que é interessante para a descrição do quarto. Uma certa delicadeza também. Talvez seja o momento mais puro e poético de toda a peça. Neste apontamento, surgem as mãos e começamos a investir nisso:
- “Uma certa...liberdade”: tentar pegar esta palavra com a mão e por isso as reticências. “Liberdade” é uma palavra importante para Gabriel. A peça fala de sua não liberdade. Associar liberdade às mãos é bom. Falo para Lema que eu como ator faria desta forma. Peço para ele achar a forma dele. Trabalhar para deixar o ator criar é o mais difícil às vezes. Os encenadores dos anos 80, dizem os livros, eram “encenadores-criadores-individuais”: Gerald Thomas, Bia Lessa, Antunes. Independente do nível que isto se dá de fato, gosto desta idéia do encenador que dirige gesto por gesto, milímetro por milímetro. Não que as coisas sejam tão pão-pão-queijo-queijo, acho que sempre hã criação conjunta. Mas o fato é que encarar o trabalho do diretor como aquele que dá o caminho-base para o ator criar é interessante e às vezes difícil. É um trabalho de desprendimento.
- “Quarto-catedral”: também com as mãos. Gabriel como que criando uma palavra nova.
- “O Quarto é um mundo”: a palavra mundo é saborosa também. O “m” amplia a palavra e o corpo vai junto. Também aqui as mãos, só que com braços também (me lembra Patricia Selonk também).
- Em dado momento, olhar para as mãos. Uma é o rosto, mesma ação da suspensão de amassar forte. A força está na mão, novamente não é preciso supervalorizar as palavras. A outra mão vai se desprendendo, mas não deve ser esquecida. Daí acho que podemos seguir e construir um sentido petiço para a punheta de Gabriel.
- Final do texto em fluxo rápido: também aqui deixar as palavras saírem, meio que jogar o texto fora, não valorizar. O fluxo ele existe quando é fluxo, quando todas as palavras se igualam e com isso damos a chance de quem ouve criar sua própria valorização de palavras e frases (aqui me vem Hilda Hilst na cabeça. E no trabalho das mãos, me vem Patrica Selonk, que adora uma partiturazinha também).
Paramos no final da priemira parte do texto. Este tipo de trabalho talvez seja bom pra ensaio de cinco horas, não sei. Pra sofisticar todas as partes e cuidar dos detalhes. 

Sobre Miguel

Conversando com Luquinhas sobre Miguel, alguns pontos:
- os irmaos moram em uma cobertura do alto do maior arranha-ceu da cidade. De lá, observam os meros mortais andando, observam de cima, deuses que são.
- no momento da transformação, o sublime em Miguel. O extase. Sensação de pular do arranha-céu, tallvez um encontro às avesses com os meros mortais, um encontro à sua maneira (sua única maneira possível?).
- Os meros mortais sobem o elevador da cobertura para serem transformados. Os gêmeos fazem este favor a eles.Os gemeos arcanjos.
- CONTEMPLAR, OBSERVAR: acho que nisso está a humanização de Miguel. Se Gabriel ja está muito humanizado, pelo fato da questão sasha bater nele de uma forma muito pessoal, Miguel aqui ganha corpo. A "questao-violencia" os une e desta questao, duas ramificaçõess: contemplação e pulsao sexual (as duas em relacao ao OUTRO, a um objeto). A contemplação e a observação se relacionam ao ato de filmar. Migue observa de cima com binúculos, com uma câmera.

Em cima disso, três textos de Luquinhas. O primeiro sobre a cidade, os outros dois textos pessoais, obervacoes na Quinta da Boa Vista.

1-
Do centésimo andar, ver a cidade. Onda de verticais. A GIGANTESCA MASSA SE IMOBILIZA SOB O OLHAR. 
A que erótica do saber se liga o êxtase de ler tal cosmos? Apreciando-o violentamente, pergunto-me como se origina o PRAZER DE "VER O CONJUNTO", de superar, de totalizar o mais desmesurado dos textos humanos. Subir até o alto do edifício é o mesmo que ser arrebatado até o domínio da cidade. O corpo nao está mais enlaçado pelas ruas que o fazem rodar e girar segundo uma lei anônima
Ícaro acima dessas águas. Labirintos móveis e sem fim. Cala a boca, papai, cala a boca.Olho solar, olhos divino, cala essa boca papai. Ser apenas esse olho que vê.
Suicídio sem choque. Eterno suicídio, 30 anos lançado sobre o espaço. Do útero ao céu. 2522...1352...
Gostaria de enngolir uma das peças deste quebra-cabeça. É preciso devorae tudo. E depois cuspir no prato que comeu.

2-
Quinta da Boa Vista
Sexta-feira, setembro, tarde ensolarada.

1. Sob uma árvore, um menino forte e uma menina frágil se beijam. Ele está encostado no tronco da árvore. Ela o abraça.
2.Do outro lado do lago, do alto, um homem observa a paisagem detrás de outra árvore. Apapa o sexo. 
3.A menina se afasta do menino e caminha pela margem com um telefone na mão.O menino a segue. Eles desaparecem atrás das pedras.
4.O homem caminha e se senta mais adiante. Apalpa o sexo ligeiramente.
7.Um homem de uniforme azul aparece.
7.O homem que se apalpava se afasta.
8.O homem de uniforme azul caminha simpaticamente e olha para tudo. Vai até as pedras, sobe, põe a mão na cintura. Olha. Depois de instante sai das pedras. Vai embora.
5.O menino e a menina surgem depois da pedra, de maos dadas. Caminham pela margem até desaparecerem.
9. O homem que apalpava observa de longe, e cada vez mais longe, próximos às árvores, corpo reto, acompanhando sempre as arvores.
10. Na volta crianças brincavam com seus respectivos pais. Namorados nas margem, na grama. Um ganso, no lago, come um peixe. Há um homem deitado na pedra. Através das grades, um homem conversa com uma mulher

2-
OUTRAS AÇOES NA QUINTA DA BOA VISTA
9/5/2012
Entre  12h30 e 13h
Quinta da Boa Vista

1. Um homem com bicicleta está parado. Está sem camisa e usa óculos escuros. Fuma um baseado, entre as árvores.
2. Próximo à beira do lago, disfarçado pelo toco, um homem sem camisa está sentado. Óculos escuros na testa.
3. O homem da bicicleta pedala até um pouco mais adiante. Continua a fumar o baseado.Está ao lado de uma árvore.
4. O outro homem que estava sentado caminha até as pedras. Fuma um cigarro. Me olha.
5. O homem da bicicleta está detrás da árvore com sua bicicleta.
6. Uma menina passa a passos largos.e de bracos cruzados. Surge detrás de uma árvores e some detrás de outra.
7. O homem da bicicleta pedala aleatoriamente até encontrar a menina.Eles conversam, ele lhe entrega algo suspeito. Desaparecem.
10. O outro homem me olha e eu o odeio. Ele vai embora e continua me olhando enquanto caminha.

4.