domingo, 20 de maio de 2012

ENSAIO 16 – “O quarto é individual...


ENSAIO 16 – “O quarto é individual...”

“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual; tanto maior uma certa liberdade, o quarto é um mundo, quarto catedral, onde nas intermitências da angústia descobre-se o rosto para colher de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mãe, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a grande embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto leve e silencioso, me pus de pé, me curvando para catar a toalha estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei em seguida a cabeça para agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns passos e abri uma das folhas me recusando atrás dela; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio suas mãos fortes nos meus ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse ´eu não te esperava´ foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava com o que eu fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti ´eu não te esperava´ foi isso o que eu disse mais um vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia ´nós te amamos muito, nós te amamos muito´ e era tudo o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse ´abotoe a camisa, André´. (“Lavoura Arcaica”, Radum Nassar. Capitulo 1)

Inicio com massagem. Depois, trabalho com foco móvel. O olho atual no espaço leva todo o corpo. Renovar o foco, se auto-sabotar. Promover a mudança real de direção do corpo. Do plano baixo pro médio e pro alto. No alto, aumentando velocidade. Caeira: ao comando, sentar na cadeira e começar fluxo verbal ininterrupto. Bom poder fazer fluxo com Lema. Os dois falando o que pensavam naquele espaço. Do fluxo, voltar. Sempre tentar aprimorar mais o foco móvel e a direção. Não gastar energia à toa. Parede: ao comando, empurrar parede com todo o corpo. Lema se cansa fácil, mas não pára. É importante concentrar energia. Da mesma forma que eu me auto-saboto e troco o foco móvel, eu trabalho a minha energia para não gastá-la à toa. Onie reclama de dor na garganta, na verdade um gânglio. Talvez fazer aquecimento de voz antes de exercícios vocais. Três pontos para se trabalhar portanto: foco móvel, cadeira e parede. Eu dou o comando e ele troca. Após trabalhar com estes três, um quarto comando, o texto: ao comando, pegar a folha de papel e ir falando o texto sem parar. Objetivo: não se ater ao sentido do texto, ao significado prévio dele, mas sim a sua massa de palavras. Palavra é massa, tem tamanho, volume, etc., isto tudo também é sentido (isto é maravilhoso). Atentar para sonoridade, ritmo, brincar com as palavras. O texto foi transposto para fluxo continuo, ou seja, possibilita maior jogo de pontuações, intenções, etc. Como quando fiz com Luquinhas num ensaio passado, o jogo demora a engrenar. Demora um tempo até parar de “racionalizar” o texto. Mas npos dois casos demorou muito pouco. Acho que o aquecimento ajuda nisso. Quando engrena é visível. É interessante observar a diferença de um ator para o outro. São corpos muito diferentes. Embora Luqs e Neido tenham prontidão e energia , força, Luqs trabalha mais com a contenção de energia talvez, sabe armazenar, domá-la melhor,e Onie vai num fluxo só. Talvez pelo fato de Luqs estudar teatro. Enquanto o corpo de Luqs é todo consciente, concentrado, tensionado, com prontidão, o de Onie é também com prontidão, mas é mais “desengonçado”, mais soltão, menos preocupado. Um é mais consciente e racional talvez, embora Luqs saiba dosar o racional, e o outro é mais “vamo lá um dois três valendo”. É interessante ter esta combinação em cena. Talvez seja uma diferença no que diz respeito a vetores. Luqs tem os vetores mais tensionados, mais lustrados, mais lapidados. Onie consegue chegar fácil nos vetores, trabalha isto bem,  mas o natural é ser corpo que vai, enguia solta loca. Isto cria diferenças muito claras entre os gêmeos, um ajuda o outro, se bobear, complementa. Voltando: para ajudar no exercício, propus o exercício de fôlego da Ana Kfouri: falar o texto em um so fôlego. Quando o fôlego vai acabar, testar mais e mais. Sempre se testar, se auto-sabotar. Nunca está bom, sempre pode ir mais. Isto ajudou Onie a ir jogando com texto. Um tempo neste jogo, em dado momento uma qualidade de corpo interessante: pés tensionados, como que andando em um aquário d´agua. Dou esta indicação a ele para faciliar (este tipo de qualidade, de intensidade, lenta, eu sempre acabo tendendo para ela, talvez pela idéia de suspensão da peça. Fico pensando nesta coisa de a obra revelar o artista e etc., acho que tem muito a ver comigo mesmo este tempo-rtimo, esta percepção , esta atmosfera mais calma e concentrada. Talvez por gostar de trabalhar esta qualidade enquanto ator, quando dirijo tendo a encontrá-la fácil e entendê-la, eu acho.Enfim...). Peço para ele tirar texto e continuar o andar nesta qualidade. Ele quebra muito o tronco. Penso em pedir para ele não quebrar o tronco, ser menos enguia louca, mas não falo. A onda é dele. Fica um tempo nisto e depois retorna ao texto. Continua brincando, surge um jeito meio automático de falar, um teste mesmo com outras formas de lidar com as palavras. Os pés no geral não muito fincados no chão. Penso em falar para fincar os pés, mas também considero que não. O fato de Onnie não ser ator, ou não estudar isto, ou não atuar há muito tempo, leva o trabalho para lugares muito iteressantes as vezes. Começamos uma segunda etapa do trabalho: peço para ele repetir a qualidade do andar de antes só que sentado. Reduzir a 50%, e com isso tirar um pouco o tronco. Lema entende bem quando falo sobre deixar a ação mais para ele do que para quem vê, mais motor interno. Peço para ele inserir na investigação um segredo dele, que deve ser cochichado bem baixinho. Eu não preciso nem quero ouvir, mas ele deve falar (Salve Celina Sodré!). Ele o faz e realmente uma qualidade interessante surge de lá. Daí, partimos para o início do texto, a descrição do quarto. Da qualidade do corpo e do segredo, peço para ele dizer o texto. Texto e corpo juntos. Uma intenção de confissão vem de imediato, uma qualidade pausada. Lema tem um timbre bonito de voz, sabe dar um texto, isto é bão. Começa dando o texto olhando prum ponto fixo e depois mudando de foco do olhar. Peço para permanecer num foco só, acho que traz tônus e vigor pra ação. O texto é sobre masturbação, um texto bem poético, e, portanto, algumas questões: não valorizar as palavras para deixá-las sublimes, poéticas ou pomposas. Elas já o são. O texto convence e cabe na boca quando ele vem seco, puro, ingênuo, quando a boca deixa o texto falar (outra vez Ana Kfouri). Outro ponto: surgem apontamentos deste texto, o que é interessante para a descrição do quarto. Uma certa delicadeza também. Talvez seja o momento mais puro e poético de toda a peça. Neste apontamento, surgem as mãos e começamos a investir nisso:
- “Uma certa...liberdade”: tentar pegar esta palavra com a mão e por isso as reticências. “Liberdade” é uma palavra importante para Gabriel. A peça fala de sua não liberdade. Associar liberdade às mãos é bom. Falo para Lema que eu como ator faria desta forma. Peço para ele achar a forma dele. Trabalhar para deixar o ator criar é o mais difícil às vezes. Os encenadores dos anos 80, dizem os livros, eram “encenadores-criadores-individuais”: Gerald Thomas, Bia Lessa, Antunes. Independente do nível que isto se dá de fato, gosto desta idéia do encenador que dirige gesto por gesto, milímetro por milímetro. Não que as coisas sejam tão pão-pão-queijo-queijo, acho que sempre hã criação conjunta. Mas o fato é que encarar o trabalho do diretor como aquele que dá o caminho-base para o ator criar é interessante e às vezes difícil. É um trabalho de desprendimento.
- “Quarto-catedral”: também com as mãos. Gabriel como que criando uma palavra nova.
- “O Quarto é um mundo”: a palavra mundo é saborosa também. O “m” amplia a palavra e o corpo vai junto. Também aqui as mãos, só que com braços também (me lembra Patricia Selonk também).
- Em dado momento, olhar para as mãos. Uma é o rosto, mesma ação da suspensão de amassar forte. A força está na mão, novamente não é preciso supervalorizar as palavras. A outra mão vai se desprendendo, mas não deve ser esquecida. Daí acho que podemos seguir e construir um sentido petiço para a punheta de Gabriel.
- Final do texto em fluxo rápido: também aqui deixar as palavras saírem, meio que jogar o texto fora, não valorizar. O fluxo ele existe quando é fluxo, quando todas as palavras se igualam e com isso damos a chance de quem ouve criar sua própria valorização de palavras e frases (aqui me vem Hilda Hilst na cabeça. E no trabalho das mãos, me vem Patrica Selonk, que adora uma partiturazinha também).
Paramos no final da priemira parte do texto. Este tipo de trabalho talvez seja bom pra ensaio de cinco horas, não sei. Pra sofisticar todas as partes e cuidar dos detalhes. 

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