ENSAIO 16 – “O
quarto é individual...”
“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto;
róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual; tanto
maior uma certa liberdade, o quarto é um mundo, quarto catedral, onde nas
intermitências da angústia descobre-se o rosto para colher de um áspero caule,
na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto
consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do
meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me
levar de volta; minha mãe, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria
vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias
de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava
entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva
úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco
apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído
das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco
de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes
adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a
grande embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho
sem acolhimento; meus olhos depois viram a maçaneta que girava, mas ela em
movimento se esquecia na retina como um objeto sem vida, um som sem vibração,
ou um sopro escuro no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram
em sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto leve e
silencioso, me pus de pé, me curvando para catar a toalha estendida no chão;
apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei em seguida a cabeça para
agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada na cadeira, escondi na calça meu
sexo roxo e obscuro, dei logo uns passos e abri uma das folhas me recusando
atrás dela; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos
olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e
espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos
dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio suas mãos
fortes nos meus ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias
nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se molharem,
e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços
encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse ´eu não te
esperava´ foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio de
receio de me deixar escapar não importava com o que eu fosse lá dizer, mesmo
assim eu repeti ´eu não te esperava´ foi isso o que eu disse mais um vez e eu
senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado
enquanto ele dizia ´nós te amamos muito, nós te amamos muito´ e era tudo o que
ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido,
mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso
ele disse ´abotoe a camisa, André´. (“Lavoura Arcaica”, Radum Nassar. Capitulo
1)
Inicio com massagem. Depois,
trabalho com foco móvel. O olho atual no espaço leva todo o corpo. Renovar o
foco, se auto-sabotar. Promover a mudança real de direção do corpo. Do plano baixo
pro médio e pro alto. No alto, aumentando velocidade. Caeira: ao comando,
sentar na cadeira e começar fluxo verbal ininterrupto. Bom poder fazer fluxo
com Lema. Os dois falando o que pensavam naquele espaço. Do fluxo, voltar. Sempre
tentar aprimorar mais o foco móvel e a direção. Não gastar energia à toa. Parede:
ao comando, empurrar parede com todo o corpo. Lema se cansa fácil, mas não pára.
É importante concentrar energia. Da mesma forma que eu me auto-saboto e troco o
foco móvel, eu trabalho a minha energia para não gastá-la à toa. Onie reclama
de dor na garganta, na verdade um gânglio. Talvez fazer aquecimento de voz
antes de exercícios vocais. Três pontos para se trabalhar portanto: foco móvel,
cadeira e parede. Eu dou o comando e ele troca. Após trabalhar com estes três,
um quarto comando, o texto: ao comando, pegar a folha de papel e ir falando o
texto sem parar. Objetivo: não se ater ao sentido do texto, ao significado
prévio dele, mas sim a sua massa de palavras. Palavra é massa, tem tamanho,
volume, etc., isto tudo também é sentido (isto é maravilhoso). Atentar para
sonoridade, ritmo, brincar com as palavras. O texto foi transposto para fluxo
continuo, ou seja, possibilita maior jogo de pontuações, intenções, etc. Como
quando fiz com Luquinhas num ensaio passado, o jogo demora a engrenar. Demora
um tempo até parar de “racionalizar” o texto. Mas npos dois casos demorou muito
pouco. Acho que o aquecimento ajuda nisso. Quando engrena é visível. É
interessante observar a diferença de um ator para o outro. São corpos muito
diferentes. Embora Luqs e Neido tenham prontidão e energia , força, Luqs
trabalha mais com a contenção de energia talvez, sabe armazenar, domá-la
melhor,e Onie vai num fluxo só. Talvez pelo fato de Luqs estudar teatro.
Enquanto o corpo de Luqs é todo consciente, concentrado, tensionado, com
prontidão, o de Onie é também com prontidão, mas é mais “desengonçado”, mais
soltão, menos preocupado. Um é mais consciente e racional talvez, embora Luqs
saiba dosar o racional, e o outro é mais “vamo lá um dois três valendo”. É
interessante ter esta combinação em cena. Talvez seja uma diferença no que diz
respeito a vetores. Luqs tem os vetores mais tensionados, mais lustrados, mais
lapidados. Onie consegue chegar fácil nos vetores, trabalha isto bem, mas o natural é ser corpo que vai, enguia
solta loca. Isto cria diferenças muito claras entre os gêmeos, um ajuda o
outro, se bobear, complementa. Voltando: para ajudar no exercício, propus o
exercício de fôlego da Ana Kfouri: falar o texto em um so fôlego. Quando o
fôlego vai acabar, testar mais e mais. Sempre se testar, se auto-sabotar. Nunca
está bom, sempre pode ir mais. Isto ajudou Onie a ir jogando com texto. Um
tempo neste jogo, em dado momento uma qualidade de corpo interessante: pés
tensionados, como que andando em um aquário d´agua. Dou esta indicação a ele
para faciliar (este tipo de qualidade, de intensidade, lenta, eu sempre acabo
tendendo para ela, talvez pela idéia de suspensão da peça. Fico pensando nesta
coisa de a obra revelar o artista e etc., acho que tem muito a ver comigo mesmo
este tempo-rtimo, esta percepção , esta atmosfera mais calma e concentrada.
Talvez por gostar de trabalhar esta qualidade enquanto ator, quando dirijo
tendo a encontrá-la fácil e entendê-la, eu acho.Enfim...). Peço para ele tirar
texto e continuar o andar nesta qualidade. Ele quebra muito o tronco. Penso em
pedir para ele não quebrar o tronco, ser menos enguia louca, mas não falo. A
onda é dele. Fica um tempo nisto e depois retorna ao texto. Continua brincando,
surge um jeito meio automático de falar, um teste mesmo com outras formas de
lidar com as palavras. Os pés no geral não muito fincados no chão. Penso em
falar para fincar os pés, mas também considero que não. O fato de Onnie não ser
ator, ou não estudar isto, ou não atuar há muito tempo, leva o trabalho para
lugares muito iteressantes as vezes. Começamos uma segunda etapa do trabalho:
peço para ele repetir a qualidade do andar de antes só que sentado. Reduzir a
50%, e com isso tirar um pouco o tronco. Lema entende bem quando falo sobre
deixar a ação mais para ele do que para quem vê, mais motor interno. Peço para
ele inserir na investigação um segredo dele, que deve ser cochichado bem
baixinho. Eu não preciso nem quero ouvir, mas ele deve falar (Salve Celina
Sodré!). Ele o faz e realmente uma qualidade interessante surge de lá. Daí,
partimos para o início do texto, a descrição do quarto. Da qualidade do corpo e
do segredo, peço para ele dizer o texto. Texto e corpo juntos. Uma intenção de
confissão vem de imediato, uma qualidade pausada. Lema tem um timbre bonito de
voz, sabe dar um texto, isto é bão. Começa dando o texto olhando prum ponto
fixo e depois mudando de foco do olhar. Peço para permanecer num foco só, acho
que traz tônus e vigor pra ação. O texto é sobre masturbação, um texto bem
poético, e, portanto, algumas questões: não valorizar as palavras para
deixá-las sublimes, poéticas ou pomposas. Elas já o são. O texto convence e
cabe na boca quando ele vem seco, puro, ingênuo, quando a boca deixa o texto
falar (outra vez Ana Kfouri). Outro ponto: surgem apontamentos deste texto, o
que é interessante para a descrição do quarto. Uma certa delicadeza também.
Talvez seja o momento mais puro e poético de toda a peça. Neste apontamento,
surgem as mãos e começamos a investir nisso:
- “Uma certa...liberdade”: tentar pegar esta palavra com a mão e por
isso as reticências. “Liberdade” é
uma palavra importante para Gabriel. A peça fala de sua não liberdade. Associar
liberdade às mãos é bom. Falo para Lema que eu como ator faria desta forma.
Peço para ele achar a forma dele. Trabalhar para deixar o ator criar é o mais
difícil às vezes. Os encenadores dos anos 80, dizem os livros, eram “encenadores-criadores-individuais”:
Gerald Thomas, Bia Lessa, Antunes. Independente do nível que isto se dá de
fato, gosto desta idéia do encenador que dirige gesto por gesto, milímetro por
milímetro. Não que as coisas sejam tão pão-pão-queijo-queijo, acho que sempre
hã criação conjunta. Mas o fato é que encarar o trabalho do diretor como aquele
que dá o caminho-base para o ator criar é interessante e às vezes difícil. É um
trabalho de desprendimento.
- “Quarto-catedral”: também com as mãos. Gabriel como que criando uma
palavra nova.
- “O Quarto é um mundo”: a palavra mundo é saborosa também. O “m”
amplia a palavra e o corpo vai junto. Também aqui as mãos, só que com braços
também (me lembra Patricia Selonk também).
- Em dado momento, olhar para as
mãos. Uma é o rosto, mesma ação da suspensão de amassar forte. A força está na
mão, novamente não é preciso supervalorizar as palavras. A outra mão vai se
desprendendo, mas não deve ser esquecida. Daí acho que podemos seguir e
construir um sentido petiço para a punheta de Gabriel.
- Final do texto em fluxo rápido:
também aqui deixar as palavras saírem, meio que jogar o texto fora, não
valorizar. O fluxo ele existe quando é fluxo, quando todas as palavras se
igualam e com isso damos a chance de quem ouve criar sua própria valorização de
palavras e frases (aqui me vem Hilda Hilst na cabeça. E no trabalho das mãos,
me vem Patrica Selonk, que adora uma partiturazinha também).
Paramos no final da priemira
parte do texto. Este tipo de trabalho talvez seja bom pra ensaio de cinco
horas, não sei. Pra sofisticar todas as partes e cuidar dos detalhes.
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