quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ensaio 9


Vianinha, ECO. 20 de abril de 2012.

Estrurando a cena 1
Blocos:
1-) Suspensao Gabriel: retomada de um material que surgiu com o primeiro ensaio com vídeo. Oni filmando seu corpo de perto. Pensar na idéia de análise combinatória entre mão, pé e gravata (batom, talvez). Gabriel em sonho, seu corpo aumentado perto do de Sasha, corpo gigante que esmaga e captura Sasha. Olivia de corpo inteiro se relacionando com a imagem filmada. Primeiro esboço: a filmagem de Oni com seu corpo em três momentos. a-) mão fechada segurando a gravata. A mão tensionada, apertando a gravata. A mão vai indo para a esquerda até sair da imagem e, enquanto ela vai fazendo o percurso, Oli vem vindo em linha reta, para ficar em frente à imagem. Quando a mão de Oni sai, Oli vira para frente. Mão de Oni volta desenrolando a gravata e deixando a mão espalmada. Oli faz movimento com o braço oposto, mão de Oni sendo um de seus braços. Termina quando Oni tira a gravata abruptamente da imagem

2-) Boca fumando: boca da Oli focada na imagem, boca com batom vermelho. Oni se relacionando com esta boca olhando para TV Relação de repetição e de escuta-resposta. Dialogo imagem-corpo. Oli solta fumaça, Oni vai para a frente. Oli mexe a língua, Oni por a Mao na boca. Moemento posterior: Oli fala com Oni pela câmera. Dialogo através da imagem. Oli para a câmera e é projetada na TV. Oni para a TV que, subentende-se, é a imagem projetada.

3-) Introdução: gêmeos vendo TV e Oli para a câmera. Som de Britney. Importante: fazer o espectador entender que o que eles vem na TV é o que é projetado, ou seja, Sasha. Importante para iniciar a cena 1, em que Gabriel continua vendo na TV o que se passa, pelo menos nas duas primeiras unidades. Ou seja: continuação do espetáculo Sasha Grey. Sasha continua virtual mesmo real.

Junção destas três partes na costura da cena 1. Roteiro:
-Introdução (gêmeos vem sasha na TV)
- inicio (trajetória Oli, Luquinhas pra câmera, Oni se aproxima da TV lentamente, cobra que vai dar o bote)
- Trajetória de Oli e Luquinhas para a ponta do retângulo. Inicio do dialogo “olá,olá”
- Luquinhas pega cadeira e leva para onde estava
- Conversa sobre cinema
- Oli senta e Luqs vai a câmera
- Luqs filma Oli cortada enquanto fala “é claro que havemos de ter sempre...”. Filma cigarro antes da fala da Oli
- Depois que Oli pergunta do cigarro, Luqs filma ela guardando o cigarro.
- Luqs vai para sahsa filmando trajetotoria do PE.
- Boca onaldo Oli
- Oli fala com Oni pela câmera. Oni responde via TV.
- Luqs tapa a câmera em “quem é que lhe disse que vinha para um trabalho?”
- Oli vai até ele
- Inicia suspensão Gabriel. Enquanto Oni começa seu jogo com a câmera, Luqs vira a TV para o público. Movimenta ela em linha reta. TV termina ao lado da cadeira. (musica da suspensão: “Medo de palhaço”, rebeca matta).

Na junção dos blocos, o registro de Oli vai ficando mais claro. Acho que “Sasha realista” é o melhor caminho para seguir.

Composições da transformação de Sasha para o próximo ensaio.

ENSAIO 8


Ensaio 8 – Corpo Santo, IPUB. 16 de abril de 2012.

Ensaio com Luquinhas e Oli.
Parte 1 – Individual com Luquinhas. Construção de partitura individual do momento da transformação de Sasha Grey. Idéia que servem de base: violência sublime, ato de violência que transcende. Quase que uma suspensão. Momento de glória. O máximo da violência e da crueldade como momento de elevação. A força do ato de violência com a leveza. Leveza/peso.
Aquecimento: o mesmo do ensaio anterior (relação com espaço, ativação do corpo, respiração, etc.). Do aquecimento, trabalhar movimentos, ações e gestos a partir do verbo RETALHAR. Primeiro em qualidade lenta, tendo como base a idéia de que a densidade do ar é muito pesada. O espaço do Corpo-Santo é um aquário e para se mover dentro d´água, é necessário um esforço específico que influencia na qualidade da ação. Depois, trabalhar com a idéia do rápido e leve, densidade do ar muito leve. Voltar pra qualidade primeira, acrescentar a idéia de sutileza. Inserir na partitura momentos de quebra que remetam ao sexual.
Estrutura da partitura:
-andar bote
- espasmos de violência
-espasmos sexuais
- ação brusca com mãos (mãos nos braços rápido)
- abaixar, pegar faca
- posição fetal
- rolamento
- final brusco (levantar, plano alto)
Musica: talvez canto gregoriano. Talvez Bjork. Talvez Mars volta (The window ou guitarras distorcidas). Não sei se é mais interessante uma musica que atue junto do andamento sublime e transcendente da partitura ou que vá para o lado oposto, criando um ruído, uma justaposição. Pensar...
Parte 2 – Luquinhas e Olivia.
Continua trabalho individual.
Luquinhas continua o trabalho em cima da partitura, testando as qualidades, os estados, etc. Olivia pesquisa ações de Sasha a partir da seguinte idéia: partir do “realismo”, pensar o ato de transformação como o momento em que o corpo à flor da pele aparece e depois o momento em que ela volta como PizzaBoy (como é este corpo do PizzaBoy? Ainda não sabemos).
Oli investe em micro ações, em qualidades do olhar, e isto é muito interessante. As micro-ações, que talvez a câmera possa enfatizar. O pequeno, o micro. O à flor da pele se mantém como referencia, talvez, só que agora mais como referencia para a construção individual dela, talvez, e menos para quem assiste, menos evidente. O momento de transformação, o momento em que ela deixa de ser a imagem Sasha, talvez seja só um estado de semi-supina. Corpo de fato atento ao espaço, qualidade do olhar, quase como “neutro”. Referência: Mariana Lima em “A máquina de abraçar” (entrevista em que ela fala que, para chegar ao estado da personagem autista, buscava a atualização real com o espaço. O autista não cria metáforas, ele vê o que vê. Estado de prontidão da ria, por exemplo)

ENSAIO 7


 Corpo Santo, IPUB. 14 de abril de 2012

Parte 1- Trabalho individual Luquinhas com texto de Miguel. Objetivo de pensar o texto como significante, ou seja, mais do que o sentido que vem dado à priori, pensar a relação com a palavra concreta, material. Pensar em sonoridade, ritmos, formas, etc. Disto, novos sentidos se constroem e se acoplam ao significado primeiro. Criação de significados.

Aquecimento: 1- VP individual com espaço. Relação com arquitetura e forma. 2- aumentar velocidade progressivamente. 3- Da velocidade já muito rápida, parar e na paragem, junto com os pés, soltar som cortante pelo diafragma. Pensar na justa medida do som. Preciso, cortante, certeiro. Após o som, 8 “s” pelo diafragma, também com a idéia de ser certeiro, preciso, na justa medida. 4- Após os 8 “s”, voltar na relação com o espaço agora com a idéia do foco móvel: buscar sempre novas direções com o olhar e a partir daí, renovar a direção do corpo no espaço. Relação com o espaço e atualização dela. O foco móvel trabalha com teto e chão também. 4- Parar e fazer 8 “pá”, soltando a voz. Também pelo diafragma. A idéia é ativar o centro, enrijecer o centro da voz. 5- Após os “pá”, andar no espaço e ir falando initerruptamente, fluxo livre, trabalhando com a idéia de fôlego. Falar ininterruptamente e indo até o último fôlego. 6- Repetição desta mesma sequência  algumas vezes. 7- Ir para a parede, executar a seguinte sequência: a-) empurrar parede, b-) empurrar parede de costas e junto disso fazer respiração cachorrinho pelo nariz sem parar, c-) voltar a empurrar parede, d-) voltar a empurrar de costas, agora com os “pá”.
Deste trabalho, ao comando, pegar o texto e falá-lo sem parar sempre andando pelo espaço, com a idéia do fôlego. O texto dado é uma compilação em fluxo livre das falas do Miguel da cena 1. O objetivo era ir brincando com as possibilidades de tempo da falas, das palavras. Atentar para como elas tem corpos, sugerem corpos sonoros, materialidades. É muito claro para quem assiste o rabalho de fora, o momento em que o trabalho de Luquinhas dá um salto, o momento em que realmente se começa a investigar as palavras como corpo e o momento em que o corpo começa a responder prontamente à fala. Fala e corpo juntos. O corpo de Luquinhas, a partir de um momento, começa a responder mais prontamente, a prontidão aumenta e o corpo vibra mais. Daí, as relações entre as palavras (tamanhos, silabas, fonemas, repetições de palavras iguais, começam a saltar) fluem. Acho que o trabalho de ativação do corpo ajudou para isto. Numa segunda etapa, peço para Luquinhas trabalhar com repetição. Ir investigando as palavras e repetir o que foi testado. A relação de Miguel com a fala, com a elocução, com a persuasão, são os pontos que guiam o trabalho. “Olhe, que se lixxxxxxxxe”. “ arte cooonnnteemmpporraannneeaa”.

Parte 2 – Com Luquinhas, Oli e Oni. Continuação do trabalho de improviso do dia anterior, a partir das duas primeiras unidades da cena 1.
Aquecimento – mesmo aquecimento feito com Luquinhas. Do aquecimento, começar uma raia no espaço. Desta raia, sai o primeiro, depois o segundo, depois o terceiro e o espaço fica vazio para começar o improviso. Primeira parte: jogo das suspensões, das quebras feito no dia anterior. Na segunda parte, os três juntos. Daí, emendar no roteiro de ações.
Pontos resgatados do ensaio de ontem:
- irmãos esperando juntos, ação dos pés.
- Sasha chegando com trajetória.
- Oni trabalhando só sentado.
- Sasha com corpo à flor da pele.
- Suspensão.

Questão: qual o registro de Sasha Grey? A idéia principal com que estávamos trabalhando desde o primeiro ensaio era a idéia de corpo à flor da pele: Sasha sai do virtual e, ali, no encontro com os gêmeos, na sala da casa deles, é o primeiro momento em que ela está tridimensional no espaço. Tudo é novo, a forma de existência do corpo dela no espaço é nova, deslocada, angustiante. Porém, uma questão apareceu: a saída de Sasha para do virtual para o real não é o momento em que os irmãos realizam a transformação? Não é nesta hora que ela deixa de ser a imagem-Sasha. Então por que ela já aparece transformada desde o início? A idéia é que, mesmo Sasha estando real na casa deles, ela ainda é virtualidade, ainda é o nome Sasha Grey, nome que é, além de Sasha, “pornografia, sexo, erotismo, poder”, etc. Ou seja: talvez a idéia do corpo à flor da pele seja para a Sasha depois da transformação, e não antes. Assim sendo, pensamos em trabalhar com Sasha “realista”. Talvez o vídeo fosse o grande responsável da cena para criar o ruído virtual/atual, o vídeo e o sistema de relações entre os personagens, no qual Gabriel vê tudo o que acontece pela televisão (a Sasha real ainda é espetáculo e, mais do que isso, a vivência dele naquele momento é também espetáculo). Esta foi a principal questão do ensaio. Também testamos Sasha extremamente caricata, extremamente boneca/corpo vitual, mas também era estranho. Ficava muito chapada a questão toda, muito dada de cara para quem já assistia. Se a estrutura da cena já é “estranha”, o registro de interpretação de Oli talvez tenha que ir para o caminho oposto. A estranheza vem da “normalidade”, do “realista” em contraste com a estrutura da TV/relação/imagem. Pensar qual o registro mais interessante para Sasha e qual o percurso deste registro, sua progressão. Pensar sobre isto.

ENSAIO 6


Vianinha, ECO. 13 de abril de 2012

Depois do ensaio de segunda com o vídeo, a estratégia adotada foi: abandonar um pouco o trabalho com vídeo e focar no trabalho relacional e narrativo. Deixar o vídeo mais por minha conta e deixar com Oli, Oni e Luqs a investigação pessoal e relacional. Dividimos a cena 1 em unidades, pensando na progressão da narrativa e na relação desta progressão com o tempo-ritmo da cena.
Unidade 1 – Esteja à vontade.
Unidade 2 – Cowboiadas.
Unidade 3 – Tutuzão (podemos papar-te o tutu?).
Unidade 4 – Arte final (transformação).
As unidades são quatro etapas rumo à transformação de Sasha Grey. O ritmo, de modo geral, vai do lento e intrigante ao violento, rápido e direto. Algumas considerações sobre a leitura e sobre a cena:
- Luquinhas: pensar os níveis de ironia de Miguel. Pensar o valor de cada fala-tese. Quando elas são sérias, quando elas são irônicas quando a ironia é para si mesmo, quando é para o outro, etc. Chapeleiro Maluco da Patricia Selonk como referência no que diz respeito ao deboche, à qualidade da fala, às quebras rítmicas, etc.
- Onaldo: Pensar a progressão de Gabriel através da intensidade com a gravata. Gravata é um medidor para a porcentagem de intenção de Gabriel. Pensar o objetivo de Gabriel sempre em relação ao de Miguel. O objetivo a principio é o mesmo do de Miguel só que Gabriel não consegue cumpri-lo porque (aqui entra o objetivo real de Gabriel) ele quer na verdade comer/devorar Sasha/entrar na imagem com ela.
Para pensar as unidades como progressão e pensar objetivos e ações de cada personagem, o seguinte roteiro se ações:
Unidade 1
- Miguel e Gabriel estão esperando Sasha.
- Sasha entra.
- Miguel pergunta se Sasha quer sentar.
- Sasha recusa.
- Miguel pergunta se pode filmar Sasha.
- Sasha aceita.
- Sasha pergunta se pode fumar.
- Miguel diz que sim, mas pede a opinião de Gabriel.
- Gabriel diz que não.
- Miguel nega a afirmação de Gabriel.
- Miguel diz que sim, Sasha pode fumar.
- Sasha acende um cigarro.
- Sasha puxa assunto com Gabriel.
- Gabriel responde.
- Sasha faz uma pergunta para Miguel
- Miguel responde com outra pergunta.

 Unidade 2
- Miguel fala à Sasha pela primeira vez sobre a “experiência sobre a violência”.
- Sasha impõe seus limites como profissional
- Gabriel agride Sasha verbalmente.
- Miguel ri.
- Gabriel pede desculpas à Sasha pela a agressão.

Unidade 3
- Miguel manda Sasha apagar o cigarro.
- Miguel e Gabriel brincam de sinônimos.
- Gabriel agride Sasha verbalmente.
- Miguel briga com Gabriel por ter agredido Sasha.
- Gabriel pede desculpas à Sasha.
- Sasha senta.
- Miguel manda Sasha levantar.
- Sasha se desespera.
- Miguel ironiza o desespero de Sasha.
- Miguel xinga Sasha.
- Sasha pede para eles não fazerem mal a ela.


Unidade 4
- Miguel explica o objetivo do “experimento sobre a violência”.
- Sasha levanta.
- Miguel manda Sasha levantar.
- Miguel mostra-lhe uma faca.
- Gabriel imobiliza Sasha e coloca um saco em sua cabeça.
- Os irmãos “transformam” Sasha.

Improvisação em cima deste roteiro de ações. Antes, um exercício que trabalha com a idéia de suspensão (a idéia do exercício é de que a suspensão, um elemento muito importante para o vídeo na cena, seja trabalhada também pelos atores. Suspensão do espaço da casa para plano mental do Gabriel). O exercício consiste no seguinte: sempre dois jogadores em cena se relacionando. Ao comando, entra um terceiro, se coloca na posição de um dos que já estavam no jogo, este sai, e a cena tem que seguir para um novo estatuto, completamente diferente no que diz respeito ao tempo-ritmo. Uma quebra, um salto. Depois, sem comando, os três em cena e as mudanças podem acontecer a qualquer momento.
Sobre o jogo:
- Imagem irmãos voando: Onaldo segurando Luquinhas com o pé, ele “voando” (relação com cena 2, espaço mental). Imagem poética, bonita.
- Imagem “lamber cus a velhos”: Luquinhas arregaçando a bunda para Olivia (imagem correspondente à fala de Gabriel da cena 1).
- Olivia comentar a peça (“Onde vai ficar a projeção?). As tentativas de se referir ao jogo como jogo (metalinguagem) interessaa também. Pode levar para lugar interessantes.
- Luquinhas lembra da idéia de repetição já trabalhada antes. Sempre bom.
- Luquinhas com ótima qualidade no jogo. Escuta mega aberta e adesão à proposta do outro. Isto dinamiza o jogo, deixa ele mais “despudorado”, mais suicida.
- Dancinha dos três sendo dançarinas do Faustão. Aqui começa a aparecer um deboche, um humor que vai permear o jogo inteiro. Muito interessante. Pensar o espaço das suspensões para abrir o imaginário em relação às questões da peça.
- Olivia cantando “Yong americans” enquanto Oni e Luquinhas dançam juntos. Muito bonito, poético e triste. Relação com a cena 2 tambm, onde Sasha está presente sendo “O grande Outro”, o Grande irmão, e os irmãos estão vulneráveis, revelados em sua condição que dá pena.´Inversão de estatutos, Sasha agora por cima.
- Oni entra e propõe uma ação que não fica clara para quem vê. Atentar para sempre investir na proposição que se faz, assim como aderir à proposição do outro.
-Olivia que veio de Carapicuíba e Aparecida do Norte. Entrevista com a dançarina do Faustão, com a atriz.
- Onaldo: tocar Olivia. Ótima ação. Gabriel testando a realidade de Sasha.
- Jogo com os sinônimos: desenvolvendo a idéia do jogo de sinônimos do texto. Luquinhas trouxe para o improviso.
- Onaldo: Gabriel pergunta para Sasha se ela topa dar para um cavalo com um peru enorme etc. Muito agressivo e muito a ver com o objetivo de Gabriel, com a condição dele de pulsão deslocada. Pode ser interessante de inserir.

No improviso em cima do roteiro de ações da cena 1:
- Uma regra para o improviso: quando Olivia acende o cigarro, deve haver um momento de suspensão. Estrutura da suspensão realizada: 1-) Oli acende cigarro 2-) Onaldo fala do pai com a gravata, 3-)Oli olha para Luquinhas e se inclina para a frente. Luquinhas dá um grito muito fino. A suspensão acaba e volta-se para a narrativa (Onaldo me pergunta em dado momento: O que seria um momento de suspensão mental do Gabriel? Eu respondo: imagine que você está conversando com sua mãe e aí o plano seguinte é você dentro de um aquário de cobras. Ele diz: David Linch. Eu digo: exato. David Linch é uma ótima referência que nunca tinha me passado pela cabeça. Realmente tem a ver. O berro de Luquinhas foi bastante David Linch, atmosfera pesadelo, angústia. Pesadelo. “Fando e Lis”, de Jodorosvsky, também tem a ver)
- Olivia faz uma trajetória ao chegar (Sasha chegando na casa dos gêmeos). Bom pensar em trajetória, se relaciona com a idéia de Miguel de só andar em linha reta, em 90 graus. Traz uma artificialidade para a cena que é bem interessante. Oli comenta que é tosco quando ela justificamos esta trajetória com a idéia de ser o caminho até a casa dos irmãos, que a trajetória talvez interesse mais como “apenas” uma trajetória. Deixar ela mais seca, evidenciada mais como trajetória. É exatamente por aí.
- Enquanto esperam, Luquinhas e Onaldo juntos. Ação com os pés de espera. Se relaciona com as ações sexuais de Gabriel. A progressão da ação leva ao exagero, um pouco desenho animado. Sugere uma linguagem interessante.
- A fala sobre o cigarro que Miguel dá já pode ser um ato de agressão de Sasha. Uma fala que vai contra a ação de Sasha Grey que já censura.
- Gesto de Olivia de suspensão com o cigarro é muito bom. Vai do realismo para uma boneca estranha, torta, mecânica. Inicia a suspensão.

O humor, a bagaceira, o não se levar tão a sério. Já que tudo é espetáculo, tudo é cópia, virtual, duas opções: ou cortar os pulsos ou rir de tudo. O tom do improviso de uma forma geral foi este, o que e relaciona muito com a cena 3, o PizzaBoy que é uma segunda Sasha, que talvez seja uma segunda Sasha a partir da imaginação do Gabriel. Os atos de violência de PizzaBoy já banalizados. Bagaceira. O ruim é bom. A idéia de sofisticação do ensaio passado: talvez o sofisticado seja o não lustrar tanto, deixar mais cruzão, mais jogadão. A violência talvez esteja no escracho.

ENSAIO 5


Ensaio 5 – Sala 113, ECO. 9 de abril de 2012

Primeira leitura com os três juntos.
Segundo dia com vídeo. Continuidade do exercício com câmera do ensaio anterior. A estrutura básica de jogo se mantém: “A” faz ações (Olivia), “B” filma (Luquinhas), “C” se relaciona com a imagem (Oni). Partindo de raia, começar a resgatar as ações individuais, e algumas falas (Onaldo: a fala do pai que dá nó em gravata, Luquinhas só pode falar “Sasha Grey”). Onaldo com a gravata: a indicação é que ela seja o objeto-base para ele, que ajude na construção dramatúrgica de Gabriel, ajude na construção de sentidos e na construção das ações físicas A idéia é: o elemento gravata traz a figura do pai, e, juntamente da pulsão sexual de Gabriel, relaciona o sexual à figura paterna. Esta relação “freudiana” interessa muito, pulsão sexual deslocada. A partir de agora, a gravata é sempre objeto de investigação.
O jogo começa e uma dificuldade se impõe do início ao fim do jogo: como os atores, em um mesmo jogo, trabalham a relação entre si (relação básica dos três personagens, objetivos individuais, conflitos de objetivos) e, ao mesmo tempo, trabalham a imagem do vídeo como elemento significante para a cena? Como investir em contato com o outro e na feitura da imagem como uma nova camada da cena, camada que abre pontos de vistas novos, que revelam detalhes de cada um dos três personagens, janelas que tornam os personagens mais complexos, mais humanos, menos humanos, etc.? O vídeo é um desdobramento da relação dos três personagens. Como disse Evângelo na conversa final do ensaio, a cena tem cinco personagens, na verdade: Sasha, Miguel, Gabriel, a câmera e a imagem projetada. Enfim: como fazer com que os atores joguem entre si e com câmera e vídeo?
A idéia de começarmos o trabalho a partir do contato dos atores com a filmagem e com a imagem veio da necessidade óbvia de que a encenação é toda baseada nesta relação cena/vídeo (virtual/atual). Pensando nestas exigências do trabalho, a idéia do ator-encenador me vem muito à cabeça: o ator que, mais do que um intérprete da subjetividade do personagem, da realização corporal daquela figura em cena, consiga manejar tempo e espaço da cena com o fim de escrever sentidos nela, sentidos cênicos, sentidos da encenação. Ou seja: sentidos que vem do trabalho presencial dele, trabalho psicofísico, e da relação deste trabalho presencial com o tempo e o espaço da cena. Aí entram os ViewPoints que, como o nome diz, trabalho com os pontos de vista da cena, com todas as camadas significantes dela. O treinamento ideal para o trabalho é pensar o vídeo como mais um ponto de vista e, mais do que isso, como uma segunda cena que acontece paralela a cena “teatral, tridimensional”. Esta idéia de duas cenas ocorrendo simultaneamente talvez dê autonomia ao vídeo e faça com que ele transite entre as qualidades de registro, suspensão, campo mental, textura, etc. Ou, talvez, o ideal seja pensar estas duas cenas não paralelas, mas em constante cruzamento. Aí, a autonomia de cada uma interfere na autonomia da outra. Os pontos de vista da cena são autônomos e cada um estabelece uma dramaturgia particular (dramaturgia de trajetórias, por exemplo, dramaturgia de gestos, etc). Porém, elas se complementam sempre, dialogam entre si, uma atualiza a outra e daí vem a dramaturgia total do espetáculo. O “ideal” talvez seja algo como uma autonomia cruzada. Enfim...
Aqui um parêntesis: para além de questões teóricas sobre pontos de vista, autonomia dos elementos da cena, etc., penso que o vídeo bate no espectador de uma forma completamente diferente no que diz respeito à SENSIBILIDADE. O vídeo tem qualquer coisa de mágico, ele hipnotiza, reveste o que é mostrado de uma atmosfera de encantamento, etc. A cena me parece menos hipnótica. Ela é muito concreta, coage mais, é mais agressiva. O que tenho pensado muito é se esta condição SENSORIAL e SENSÍVEL que diz respeito à imagem é algo geral, algo que possa ser compartilhado, ou é pessoal e individual meu. Como produzir esta qualidade no espetáculo?. Ou seja: se o encontro destas duas qualidades distintas, do vídeo e da cena, se este encontro produzirá no espectador o efeito que tem sobre mim, que existe, pelo menos, na minha cabeça como projeto. A idéia de deixar a imagem respirar também está muito presente atualmente em mim: dar ao espectador o tempo necessário para que ele entre na imagem, dar o tempo para que entre na cena, na relação, dar ao espectador o tempo de cruzar o jogo entre as duas coisas.
Voltando ao ensaio, o que houve é que na tentativa de trabalhar relação e ao mesmo tempo trabalhar o vídeo, tudo se mostrou um pouco disperso e pouco firme. Como pensar no vídeo como inserção de uma nova camada se a camada-base, a da relação entre as três figuras da narrativa, também não estava muito sólida (o que fizemos até agora foram exercícios individuais de ações e relacionais somente com duas pesoas – ou Oni e Oli, ou Oli e e Luqs)? Por outro lado, querer que os primeiros contatos com o vídeo tenham o nível de sofisticação preterido é querer demais. Na verdade, às vezes a não sofisticação também pode ser interessante, a idéia de não querer fugir do óbvio de cara. Deixar o óbvio existir, saber como ele é. E mais do que isso, existem coisas que só os atores sabem, que não transbordam para a cena, que contribuem para gerar uma sutileza de presença, de estado, coisas que ficam guardadas na memória e que servem para a construção de um imaginário, para a construção posterior. A relação de Oli com a câmera, talvez, o manuseio da câmera por parte de Luquinhas, por exemplo.
Onaldo fala de um momento específico: a câmera filmava o chão e a parede e ele colocou a gravata aos poucos na imagem (gravata como cobra rastejando). Em dado momento, Oli puxou a gravata. Para ele, houve a sensação de que Sasha captura a gravata “real” para o “mundo virtual”. Este imaginário interessa muito para a cena. Em dado momento, propus que eles se relacionassem entre si e esquecessem a câmera. A câmera ficou no chão e o que víamos na imagem eram os pés – próximos, afastados, cruzados, etc. Esquecer a câmera pode ser um recurso interessante também, não dar a ela tanta importância pensada. Talvez dessa falta de “sofisticação” venha a sofisticação, o interessante, aquilo que atrai o espectador, que interessa. O trabalho que tem em instigado muito é pensar a costura dramatúrgica do vídeo. Quando ele é esquecido, quando desligamos a câmera e o que interessa é o presencial? Etc. O vídeo esquecido traz uma coisa de registro e isto talvez traga mais realidade para a cena (idéia de “teor de realidade” da imagem de que fala Bazin em “A ontologia...”). é interessante isto: talvez o vídeo traga concretude para a cena e não “virtualidade”. Talvez ele só explicite a concretude da cena. Quando ele não é muito “montado”, “artificial”, “preparado”, talvez propicie isto.
Evangelo fala de uma percepção de que a imagem sempre chama muito mais atenção do que aquilo que acontece presencialmente. Volta a questão: quando há a necessidade de a cena chamar mais atenção que o vídeo e vice-versa?
O que conversamos ao final do ensaio é de que talvez seja mais interessante trabalhar relação sem vídeo antes para, depois dela mais estruturada, pensar como inseri-lo. Talvez quanto mais sólidos os atores estejam em relação ao seu personagem e aos outros, mais eles consigam brincar com o vídeo com mais propriedade, etc.